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domingo, 24 de abril de 2011

A reedição de Captain Easy, clássico das HQs de aventura



Wash Tubbs foi provavelmente a primeira história em quadrinhos de aventura publicada nos EUA, em 1924. Captain Easy apareceu como um personagem secundário de Wash Tubbs, em 1929, mas a partir de 1933 ganhou sua própria HQ, Captain Easy: Soldier of Fortune, publicada em jornais aos domingos, em página inteira e colorida. A editora Fantagraphics está relançando as aventuras de Captain Easy em edições luxuosas de capa dura, tamanho grande e com as cores originais.

Roy Crane foi o talentoso criador de Wash Tubbs e Captain Easy. Não foi o inventor dos quadrinhos de aventura – Zé Caipora, do artista ítalo-brasileiro Ângelo Agostini já era publicado em 1883! – mas foi muito influente para o desenvolvimento do gênero nos EUA. Crane criava histórias nas quais aventura, humor e romance apareciam na medida certa. As narrativas eram fluidas, simples e ingênuas, mais voltadas para o público infantil. Certamente eram tão divertidas quanto uma boa matinê de cinema.


Captain Easy é um personagem destemido, durão e cínico. Algumas vezes é capaz de “jogar sujo” para vencer um inimigo, mas certamente possui boa índole. Viaja por diversos países em busca de aventuras. Combate piratas, caça tesouros, conhece belas mulheres e descobre culturas exóticas.

Os desenhos de Crane são claros, simples, arredondados. Combinam perfeitamente com as cores primárias utilizadas na impressão dos jornais da época. Seus personagens eram desenhados de modo mais caricatural que realista, com traço solto e leve, sem muita preocupação com detalhes. Na diagramação, Crane soube explorar o espaço de página inteira das HQs de Captain Easy, alternando quadrinhos horizontais e verticais para conseguir um efeito mais dinâmico. O autor também usava os quadrinhos horizontais para mostrar belas imagens panorâmicas de lutas e perseguições. Um detalhe divertido da arte de Crane são os animais com olhos esbugalhados e expressão cômica que apareciam como figurantes em alguns desenhos.


Como costuma fazer em suas reedições de quadrinhos clássicos, a editora Fantagraphics realizou um ótimo trabalho. O design do volume é simples e elegante, com destaque para a capa feita de vários materiais, como tecido e papelão. Os quadrinhos foram escaneados de jornais antigos e as cores originais foram mantidas, preservando a aparência das primeiras edições. A coletânea é enriquecida por vários textos introdutórios, inclusive alguns parágrafos escritos por Charles Schulz (autor de Peanuts). No final do volume ainda há uma nota explicando o processo de colorização dos antigos quadrinhos de jornais, além de três paginas com artes originais de Crane. Algumas páginas do livro podem ser vistas no site da editora.

Título: Captain Easy – Vol.1 – 1933-1935
Autor: Roy Crane
Ano de Edição: 2010
Editora: Fantagraphics Books
144 páginas

domingo, 5 de dezembro de 2010

Monstros, fantasmas e pragas adolescentes em Big Baby, de Charles Burns


Tony Delmonto, também conhecido como Big Baby, poderia ser um típico garoto norte-americano, se não fosse por seu rosto de bebê e por estar sempre topando com monstros, pragas adolescentes e fantasmas de meninos mortos. Tony, como muitos garotos de sua idade, é extremamente imaginativo, tem um melhor amigo e adora HQs e filmes de terror e ficção científica.

A coletânea Big Baby reúne cinco HQs protagonizadas pelo personagem criado por Charles Burns e publicadas entre 1983 e 1999. Nas duas HQs mais antigas Burns ainda desenha os personagens de modo um pouco caricatural e cômico. Mas a partir de Teen Plague, a terceira história do livro, vemos a arte extraordinária e inconfundível que ficaria bem conhecida na novela gráfica Black Hole. Uma arte precisa e sombria, mesmo nas cenas diurnas. Tudo que Burns desenha parece moldado a partir da mesma matéria negra e brilhante. Se Jaime Hernandez é perfeito no equilíbrio entre branco e preto nos quadrinhos, Burns é mestre no domínio opressivo das sombras negras sobre o branco.


Teen Plague parece um ensaio para Black Hole. Também trata de uma doença transmitida entre adolescentes, causando alterações físicas e alucinações. A imaginação de Tony Delmonto nunca para de trabalhar: o garoto acredita que uma praga está se espalhando quando vê um chupão no pescoço de uma garota. Por coincidência, Tony está lendo uma HQ em que invasores do espaço contaminam os humanos, deixando uma marca semelhante. A ironia é que realmente existe uma praga se espalhando, embora nada tenha a ver com ETs ou chupões. Burns consegue equilibrar horror e humor de modo refinado, e ainda homenageia os quadrinhos violentos publicados pela EC Comics nos anos 1950.


O clima de horror se insinua desde o início das narrativas, mas o autor sabe a hora exata de surpreender o leitor. A violência é usada de modo ponderado, ao contrário da maioria das HQs e filmes do gênero.

Graças a obras como Skin Deep, Big Baby e Black Hole, Charles Burns já pode ser considerado um dos principais autores de quadrinhos de horror de todos os tempos.

Autor: Charles Burns
Editora: Fantagraphics Books
Ano de edição: 2007
96 páginas


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ghost World, HQ clássica de Daniel Clowes, continua inédita no Brasil


Entre os autores que faziam quadrinhos underground nos anos 1980, Daniel Clowes foi um dos que mais se destacou. Nunca se acomodou, continuou aprimorando sua técnica narrativa e criou um conjunto de novelas gráficas de altíssima qualidade, sem pontos baixos. Ao lado de Charles Burns e Chris Ware, está entre os melhores quadrinistas contemporâneos. Mesmo assim, teve apenas uma novela gráfica, Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, publicada no Brasil.

A evolução de seu trabalho ficou evidente no decorrer da publicação de suas revistas de quadrinhos Lloyd Llewellyn e Eightball. O humor bizarro das primeiras HQs foi aos poucos substituído por uma visão pessimista, melancólica do mundo. Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, publicada na Eightball entre 1989 e 1993 foi a obra de transição, com uma trama absurda e surreal, humor negro e violência extrema.

Entre 1993 e 1997, também na Eightball, foi publicada, em capítulos, a HQ Ghost World, que seria lançada no formato de novela gráfica em 1997, atingiria um público amplo e tornaria Clowes conhecido fora do circuito underground. Uma crítica publicda na revista Time declarava que Ghost World era um clássico instantâneo. Outros críticos chegaram a comparar a obra ao livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, pela autenticidade com que mostrava as angústias da adolescência. Em 2001 foi lançado um filme baseado na HQ.

As personagens principais de Ghost World são a inquieta e impulsiva Enid, e sua amiga inseparável e cúmplice Rebecca. As duas adolescentes, recém formadas no colegial, parecem não ter objetivos nem ocupações, além de criticar tudo e todos que encontram pela frente.

Enid, com seu humor amargo, parece refletir a personalidade de Clowes. Age como a líder da dupla, arrastando Rebecca para lugares bizarros e discursando sobre qualquer coisa que lhe passe pela cabeça. Rebecca, apesar de seguir passivamente Enid, é uma personagem mais comum, uma adolescente sem grandes ambições, que não sabe bem o que fazer da vida.


As duas meninas perambulam pelos subúrbios de uma cidade americana típica, com sua infinidade de centros comerciais e casas de classe média, e seus estranhos habitantes, como um neonazista, possíveis satanistas e um ex-padre pedófilo. Ghost World é a frase que aparece pichada em vários pontos da cidade, e descreve esse mundo onde se é solitário vivendo entre milhares de pessoas, uma América onde tudo parece bizarro e ridiculamente falso, como um restaurante que tenta vulgarmente imitar o estilo dos anos 1950 em plenos anos 1990.

Enid e Rebecca andam em círculos nesse mundo fantasma, protegidas pela sensação, típica da adolescência, de ser algo puro em meio a uma sociedade corrompida. Mas logo chega o momento em que é preciso amadurecer, decidir seu destino: pular fora ou se acomodar ao mundo fantasma. Cada garota toma um rumo, e a separação carrega a HQ de emoção. O final é aberto, misterioso e tocante, mas sem exageros.

A arte de Clowes combina perfeitamente com seus personagens estranhos e a arquitetura kitsch das cidades em que eles habitam. Uma pálida luz verde-azulada banha todos os quadros, segundo Clowes para passar a sensação de que o mundo fantasma da HQ é iluminado apenas pelo brilho artificial dos aparelhos de TV.

Desde 1997, Ghost World foi publicada pela Fantagraphics em vários tipos de encadernados. A mais econômica é a edição em capa mole, mas os fanáticos pelo trabalho de Clowes também podem adquirir a edição especial de luxo lançada em 2008, com capa dura, esboços dos personagens, alguns comentários do autor e o roteiro do filme baseado na HQ.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Primeira Guerra Mundial, no traço de Jaques Tardi


Título: It Was the War of the Trenches
Autor: Jaques Tardi
Editora: Fantagraphics Books
Ano de Edição: 2010
120 páginas

A HQ It Was the War of the Trenches, do francês Jaques Tardi, teve um longo período de gestação: foi originalmente publicada em capítulos, na França, entre os anos de 1982 e 1993. É uma das mais belas e terríveis obras anti bélicas da história dos quadrinhos. Com base em fotos, documentos da época e diversos livros sobre o assunto, os desenhos de Tardi estão mais realistas que de costume, mas o autor não se preocupa em descrever estratégias militares e panoramas políticos. O foco desta obra é o sofrimento humano: a vida nas trincheiras lamacentas cercadas de cadáveres, o horror de soldados que eram alvejados por seus próprios exércitos para que não recuassem, a angústia por terem de lutar em uma guerra que não lhes fazia sentido, e verem seus amigos sendo mortos quase diariamente.
O livro está dividido em narrativas curtas, independentes umas das outras. Os personagens são todos ficcionais, embora o interesse de Tardi por este tema tenha sido despertado por um episódio vivido por seu avô, que lutou na Primeira Guerra Mundial.
Mesmo não tendo o impacto de obras como Maus de Art Spiegelman, ou das HQs jornalísticas de Joe Sacco, Tardi acerta ao se concentrar nas tragédias pessoais dos soldados, criando um conjunto de narrativas tocantes.It Was the War of the Trenches está sendo lançada pela primeira vez em sua forma completa em língua inglesa. Algumas páginas da HQ podem ser baixadas no site da editora Fantagraphics.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fantagraphics publica clássico dos quadrinhos franceses


Título: You Are There
Autores: Jean-Claude Forest e Jacques Tardi
Editora: Fantagraphics Books
Ano de Edição: 2009
192 páginas

A editora Fantagraphics está lançando no mercado norte-americano algumas das principais obras do quadrinista francês Jacques Tardi, cuja carreira profissional começou em fins dos anos 60, na revista Pilote. Artista versátil e prolífico, Tardi, além de desenhar suas próprias histórias, adaptou romances e enredos de diversos outros autores.

You Are There foi originalmente publicado na França em capítulos, a partir de 1978. O roteiro é de Jean-Claude Forest, criador da personagem Barbarella (mais conhecida por sua versão cinematográfica, na pele de Jane Fonda). Na trama kafkiana, There, o personagem principal, é proibido pela lei de pisar nas terras que foram de sua família, sendo-lhe permitido somente andar sobre os muros que dividem os lotes dos atuais proprietários.

Mesmo sendo infernizado pelos inescrupulosos proprietários, There não abandona a antiga propriedade de seus antepassados. Vive em uma minúscula casa construída sobre um muro, enquanto, com a ajuda de seus advogados, tenta reaver as terras. Um estranho marinheiro e uma garota ninfomaníaca estão entre as poucas pessoas que tentam interagir com o personagem principal.

Apesar de um começo meio lento a história cresce nos desfechos absurdos dos últimos capítulos, e o roteiro de Forest funciona como uma crítica bem-humorada ao exagerado apego das pessoas às coisas materiais. Jacques Tardi desenha de modo realista objetos e cenários, enquanto retrata os personagens de modo caricatural e divertido. Esta combinação de caricatura e realismo, apesar de não ser nada inovadora, é executada com muito talento por Tardi.

Algumas páginas do livro podem ser baixadas através do site da Fantagraphics.