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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma brilhante reedição de Príncipe Valente


Prince Valiant é um jovem príncipe medieval. Sua epopéia tem início em um reino pantanoso no norte da Europa. Entre uma aventura e outra, ele viaja para terras distantes, combate invasores hunos e saxões, e se torna cavaleiro do lendário Rei Arthur. Conhecido no Brasil como Príncipe Valente, ou simplesmente Val, o personagem foi criado por Harold Foster em 1937 para protagonizar histórias em quadrinhos publicadas em jornais. Logo se tornou um clássico e teve sua saga transformada em filmes e animações. Prince Valiant – Vol.2 foi lançado nos EUA em 2010, e reúne histórias originalmente publicadas entre 1939 e 1940.

Antes de começar a fazer quadrinhos, Foster trabalhou como ilustrador e estudou na Academia de Artes de Chicago. Sua formação acadêmica, somada à experiência no ramo de ilustrações, contribuiu para que seus desenhos adquirissem um estilo sóbrio e detalhista. Seus traços finos possuem uma precisão fotográfica e seu bom gosto para combinação de cores compensava a limitada palheta disponível para os quadrinhos de jornais da época.

As histórias reunidas em Prince Valiant – Vol.2 mostram uma arte madura. As imagens de batalha são as que mais chamam a atenção, pelo dinamismo e riqueza de detalhes. O autor fazia uma exaustiva pesquisa iconográfica para que as armas e roupas de seus personagens fossem verossimilhantes. Alguns quadros de Prince Valiant também se destacam pelo modo cuidadoso e complexo como o autor retrata a paisagem, dando a certas cenas uma acentuada sensação de profundidade, incomum nas histórias em quadrinhos.
No quadro abaixo fica evidente por que a arte de Foster é tão cultuada. Um grupo de guerreiros hunos está tentando invadir um castelo defendido por Val e mais alguns soldados. A batalha é minuciosamente retratada, desde a grande variedade de armas até as técnicas de combate. Nos rostos dos invasores vemos expressões de ódio e medo, enquanto Val e seus companheiros parecem calmos, confiantes – alguns até sorriem. Mas o detalhe de uma flecha prestes a atingir a perna de um desses soldados, no canto inferior da imagem, é um aviso discreto de que a batalha não será tão fácil.


A opção por não usar balões de texto contribui para criar um ritmo de leitura mais lento – adequado para que o leitor possa observar os detalhes de cada quadrinho. É um estilo narrativo que exige certo esforço de quem lê.

Os personagens criados por Foster não são muito originais – príncipes heróicos, bruxas, malandros simpáticos, reis cruéis – mas os enredos são bem construídos, com muitas reviravoltas e suspense. Aventuras e batalhas preenchem a maior parte das narrativas, mas são os episódios de humor que parecem ter resistido melhor ao tempo, como a passagem em que Val executa um arriscado plano apenas para roubar as roupas de um inimigo. Para temperar as histórias, o autor também usa um pouco de drama e romance.


As HQs do Príncipe Valente são constantemente reeditadas no mundo todo, mas esta coleção iniciada em 2009, pela editora Fantagraphics, é especial pela preocupação em restaurar a obra de Foster com o máximo de fidelidade. A arte original foi respeitada e cuidadosamente reconstituída a partir das provas de impressão originais, além de outras fontes de alta qualidade. A publicação em cores, com capa dura e papel opaco é luxuosa na medida exata. É uma edição definitiva e uma homenagem justa à arte de Harold Foster.

Título: Prince Valiant – Vol.2 – 1939-1940
Autor: Harold Foster
Ano de Edição: 2010
Editora: Fantagraphics Books
112 páginas

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

As melhores HQs publicadas em 2010 nos EUA – Alternativas e clássicas



(Originalmente postada no site ambrosia.com.br)

Nos EUA, autores de quadrinhos são cada vez mais respeitados como artistas e intelectuais. Este status ficou claro em 2010 quando ilustrações de Chris Ware e Robert Crumb, rejeitadas por importantes publicações norte-americanas, tiveram imensa repercussão no meio cultural. Ware zombou dos milionários em uma divertidíssima arte para a capa da revista de negócios Fortune, na qual os ricos dançam no topo de um edifício enquanto o resto da população sofre os efeitos da crise financeira. A capa de Crumb para a revista The New Yorker parece ter sido recusada apenas por mostrar um casamento homossexual. Crumb não divulgou sua ilustração, mas a de Ware apareceu em vários sites. Nos dois casos ficou claro que o autor de quadrinhos não é necessariamente um criador de desenhos decorativos. Muitas vezes ele tem uma visão do mundo aguçada a ponto de abalar os responsáveis por publicações sólidas e de renome.
Abaixo estão algumas das melhores HQs publicadas em 2010 nos EUA, incluindo obras de Chris Ware e Robert Crumb (sem ordem de preferência):

The Best American Comics 2010 - Vários autores - Neil Gaiman (editor) 
Gaiman, autor da cultuada série Sandman, selecionou algumas das melhores HQs norte-americanas publicadas entre Setembro de 2008 e Agosto de 2009. Genesis de Crumb, Asterios Polyp de Mazzucchelli e Scott Pilgrim vs. The Universe estão entre as obras mais conhecidas desta coletânea e foram publicadas no Brasil. As surpresas ficam por conta de histórias menos conhecidas, como Acme Novelty Library 19, de Chris Ware, e a sombria The Lagoon, de Lili Carré.

Love and Rockets New Stories n.3 - Gilbert Hernandez e Jaime Hernandez
Gilbert exagerou na dose de sexo e violência, mas Jaime criou uma de suas melhores HQs. Abuso infantil, traumas e relações familiares dilacerantes são mostrados em um arco de três histórias, nas quais o tom narrativo salta do cômico ao trágico em poucos quadrinhos.

Strange Tales - Vários autores
Os heróis da Marvel revistos por autores de quadrinhos independentes. Os destaques são as hilárias aventuras criadas por Peter Bagge para Homem-Aranha e Hulk. Paul Pope (Batman: Ano100), Jason (The Living and the Dead), Dash Shaw (Umbigo sem Fundo) e Tony Millionaire (Maakies) também contribuem com ótimos trabalhos.

Wilson - Daniel Clowes
Novela gráfica composta por setenta HQs de uma página que podem ser lidas separadamente, mas que juntas formam um retrato do personagem que dá nome à obra. Wilson é um sujeito arrogante, egoísta, solitário, que aborda desconhecidos com perguntas sobre suas vidas pessoais apenas para zombar das respostas. Clowes explora novos estilos narrativos e se consolida como um dos melhores autores de quadrinhos contemporâneos.

The Extraordinary Adventures of Adele Blanc-Sec (Vol. 1) - Jacques Tardi
O francês Tardi é um artista versátil, narrador cuidadoso de fatos históricos e imaginários. As linhas claras e leves de seus desenhos remetem ao estilo de outro francês, o cultuado Moebius.  Suas principais obras estão sendo relançadas nos EUA pela editora Fantagraphics.

Reedição primorosa das aventuras do Príncipe Valente, com as magníficas cores originais. Mais que qualquer lançamento individual, o que se destacou no mercado norte-americano de quadrinhos em 2010 foi a consolidação de um padrão rigoroso de qualidade gráfica. Este padrão é bem visível nas reedições de HQs clássicas e tem como item fundamental a reprodução fiel da arte original dos quadrinhos, inclusive as cores, mesmo que com algumas manchas e imperfeições. O respeito com as antigas narrativas gráficas não partiu das editoras, mas sim de uma nova geração de leitores cada vez mais exigentes e conscientes do valor cultural das HQs.

Thirteen Going on Eighteen - John Stanley
Melvin Monster 2 - John Stanley
O cartunista Seth, responsável pelo design das reedições, infelizmente optou por não incluir as capas originais. Mas estas publicações luxuosas são irresistíveis para quem conhece a importância do trabalho de John Stanley, autor mais conhecido por levar a personagem Luluzinha aos quadrinhos.

Um personagem extremamente complexo, exposto de modo impiedoso e contundente. A arte de Ware continua clara e geométrica, mas a técnica narrativa está mais ousada, explorando os limites da fragmentação dos quadrinhos e mudanças drásticas de estilo gráfico.

X´ed Out - Charles Burns
Nesta primeira parte da mais recente novela gráfica de Burns, um rapaz vaga entre delírios, lembranças e raros momentos de lucidez. Alguns leitores reclamaram que Burns não deu muita atenção ao roteiro. Vale ao menos pela alta qualidade gráfica e as referências às clássicas HQs do Tintin.

Acusados de incitarem a violência, os quadrinhos de horror foram praticamente banidos das bancas norte-americanas na segunda metade dos anos 1950. Esta coletânea é uma ótima introdução ao gênero, com reproduções de histórias e capas originais.

The Littlest Pirate King - Pierre Mac Orlan, David B.
Acostumados a conviver com monstros marinhos, pilhar navios e assassinar marinheiros, um grupo de assustadores piratas mortos-vivos tem sua rotina radicalmente transformada quando se vêem obrigados a cuidar de uma criança. David B., autor da HQ autobiográfica Epilético, usa sua arte bela e sombria para adaptar um divertido texto de Orlan.

Exemplo primoroso de jornalismo em quadrinhos. Foi lançado no Brasil com o título Notas sobre Gaza, pela editora Companhia de Letras.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Clássico Príncipe Valente em cores!

Título: Prince Valiant – Vol.1 – 1937-1938
Autor: Harold Foster
Ano de Edição: 2009
Editora: Fantagraphics Books
120 páginas

A editora Fantagraphics está relançando nos Estados Unidos o clássico Prince Valiant, de Harold Foster, em luxuosa edição colorida e com capa dura. Segundo os editores, de todas as versões já publicadas em diversos países, esta é edição mais fiel à original, por ter sido feita a partir das provas de impressão originais e outras fontes de alta qualidade. Prince Valiant inicialmente era publicado apenas nas páginas dominicais dos jornais, sempre em cores.



Neste primeiro volume estão reunidas as primeiras HQs do personagem, publicadas de 1937 a 1938. É interessante ver a rápida evolução da diagramação e dos desenhos, um pouco contidos e esquemáticos no início, mas logo se tornando extremamente detalhados e expressivos. Nos enredos prevalecia a aventura, mas também havia espaço para humor, romance e tragédia. Rei Arthur e seus cavaleiros, o mago Merlin, Morgana, bruxas e vikings contracenam com Prince Valiant, ou Príncipe Valente, como ficou conhecido por aqui.


No Brasil, as aventuras do príncipe de Foster foram publicadas em edições de luxo com capa dura por várias editoras, como a EBAL (veja detalhe abaixo, à esquerda), mas sempre em preto e branco. As edições nacionais tinham ótima qualidade, e permitiam ver com maior clareza os detalhes dos desenhos, mas as cores recuperadas na nova edição americana acrescentam vibração e vivacidade aos quadrinhos (detalhe abaixo, à direita).